quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Dia de Francisco de Assis – 04 de outubro

Dia da Morte de Francisco de Assis – 04 de outubro
Resultado de imagem para morte de São Francisco de Assis

Quase moribundo, Francisco compôs o Cântico das Criaturas. Até o fim da vida deseja ver o mundo inteiro louvando ao Senhor. Seu interesse não era a ecologia, mas o Deus criador do céu e da terra. Seu relacionamento com a vida estava baseado no seu relacionamento com Jesus.
No outono de 1225, enfraquecido pelas enfermidades, se retirou para São Damião. Quase cego e sozinho numa cabana de palha, em estado febril e atormentado pelos ratos, deixou para todos nós este cântico de amor ao Pai. A penúltima estrofe que exalta o perdão e a paz, foi composto em julho de 1226, no palácio episcopal de Assis, para por fim a uma desavença entre o bispo e o prefeito da cidade. Estes poucos versos bastaram para impedir a guerra civil. A última estrofe, que acolhe a morte, foi composta no começo de outubro de 1226, dias antes de sua morte. O Cântico das Criaturas e a Oração da Cruz são os únicos escritos de Francisco em Italiano antigo.
Francisco deixa esta vida. Entra na vida eterna e nos presenteia com um lindo louvor a Deus. O Deus de todas as criaturas.

Cântico de Frei Sol ou Louvor das Criaturas


1 Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são o louvor, a glória, a honra e toda bênção (cfr. Ap 4,9.11). 
2 Só a ti, Altíssimo, são devidos; E homem algum é digno de te mencionar. 
3 Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas (cfr. Tb 8,7), especialmente o senhor Frei Sol, que é dia e nos iluminas por ele. 
4 E ele é belo e radiante com grande esplendor; de ti, Altíssimo, carrega a significação. 
5 Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Lua e as Estrelas (cfr. Sl 148,3), no céu as formaste claritas e preciosas e belas. 
6 Louvado sejas, meu Senhor pelo Frei Vento, pelo ar, ou nublado ou sereno, e todo o tempo (cfr. Dn 3,64-65), pelo qual às tuas criaturas dás sustento. 
7 Louvado sejas, meu Senhor pela Irmã Água (cfr. Sl 148, 4-5), que é muito útil e humilde e preciosa e casta. 
8 Louvado sejas, meu Senhor, pelo Frei Fogo (cfr. Dn 3, 63) pelo qual iluminas a noite (cfr. Sl 77,14), e ele é belo e alegre e vigoroso e forte. 
9 Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a mãe Terra (cfr. Dn 3,74), que nos sustenta e governa, e produz frutos diversos e coloridas flores e ervas (cfr. Sl 103,13-14). 
10 Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor (cfr. Mt 6,12), e suportam enfermidades e tribulações. 
11 Bem-aventurados os que as suportam em paz (cfr. Mt 5,10), que por ti, Altíssimo, serão coroados. 
12 Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã a Morte corporal, da qual nenhum homem vivo pode escapar. 
13 Ai dos que morrerem em pecados mortais! Felizes os que ela achar conformes à vossa santíssima vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal! (cfr. Ap 2,11; 20,6) 
14 Louvai e bendizei a meu Senhor (cfr. Dn 3,85), e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade.

Assim relata Frei Nilo os últimos momentos de Francisco de Assis e sua relação com a morte  (Sermão proferido por Frei Nilo Agostini, na Festa de São Francisco de Assis, 04/10/1991).

Todo debilidato, com voz fraca, sumida, entoa Francisco o Salmo 142: Você mea ad Dominum clamavi (“Com minha voz clamei ao Senhor...”). O Salmo vai sendo entoado pouco a pouco, e ao chegar ao versículo Educ de custodia animam meam (“Arranca do cárcere minha alma, pra que vá cantar teu nome, pois me esperam os justos e tu me darás o galardão”). Faz-se grande e profundo silêncio. Acabara de morrer, cantando, Francisco de Assis.
Quem é este que transfigura o trauma da morte em expressão de liberdade tão suprema? Desaparece o sinistro da morte. E Francisco vai ao seu encontro como quem vai abraçar e saudar uma irmã muito querida.
Ano de 1226. Francisco se acha muito debilitado. Seu estômago não aceita mais alimento algum. Chega a vomitar sangue. Admiram-se todos como um corpo tão enfraquecido, já tão morto, ainda não tenha desfalecido. Transportado de Sena para Assis, Francisco ainda encontra forças para exortar os que acorrem a ele. E aos irmãos diz: “Meus irmãos, comecemos a servir ao Senhor, porque até agora bem pouco fizemos”. Ao chegar a Assis, um médico se apresenta e constata que nada mais resta a fazer. Ao que Francisco exclama: “Bem-vinda sejas, irmã minha, a morte!” E convida aos irmãos Ângelo e Leão para cantarem o Cântico do Irmão Sol, ao qual Francisco Acrescenta a última estrofe em louvor a Deus pela morte corporal.
Cria-se uma atmosfera tão jovial e alegre que o Ministro Geral da Ordem, Frei Elias, interpela Francisco para que pare com toda aquela atmosfera, vista como “cantoria”, para que enfim ele morra “convenientemente”, pois poderia escandalizar os moradores de Assis. “Com tudo o que sofro, me sinto tão perto de Deus que não posso senão cantar!” – respondeu-lhe Francisco.
Aproximando-se a hora derradeira, Francisco deseja ser levado para a capelinha de Nossa Senhora dos Anjos, na Porciúncula, onde tudo havia começado. Lá, num gesto de despojamento, de identificação com o Cristo crucificado e de integração com o Pai, pede que o deixem, nu, sobre a terra e diz aos frades: “Fiz o que tinha que fazer. Que Cristo vos ensine o que cabe a vós”. Despede-se de todos os irmãos; abençoa-os; lembra-lhes que “o Santo Evangelho é mais importante que todas as demais instituições”. Ainda deseja que Irmã Jacoba lhe traga alguns daqueles deliciosos biscoitos. Anima o seu médico, dizendo-lhe: Irmão médico, dize com coragem que a minha morte está próxima. Para mim, ela é a porta para a vida!” E, então, canta o Salmo 142. Francisco parte cantando, cortês, hospitaleiro e reconciliado com a morte.
O canto de Francisco está baseado em uma percepção realista da morte: “Nenhum homem pode escapar da morte”. Mas como pode ser irmã aquela que engole a vida, que decepa aquela pulsão arraigada em cada um de nós, fundada em um “desejo” que busca triunfar sobre a morte e viver eternamente? Francisco acolhe fraternalmente a morte. Nele realiza-se, de forma maravilhosa, o encontro entre a vida e a morte, em um processo de integração da morte.
Francisco acolhe a vida assim como ela é, ou seja, em sua exigência de eternidade e em sua mortalidade. Tanto a vida como a morte são um processo que perdura ao longo de toda a vida. A morte faz parte da vida. Como e despertar e o adormecer, assim é a morte para o ser humano. Ela não rouba a vida; dá a esse tipo de vida a possibilidade de outro tipo de vida, eterna e imortal, em Deus.
A morte não é então negação total da vida, não é nossa inimiga, mas é passagem para o modo de vida em Deus, novo e definitivo, imortal e pleno. Francisco capta esta realidade e abriga a morte dentro da vida. Acolhe toda limitação e mostra-se tolerante com a pequenez humana, a sua e a dos outros.
A grandeza espiritual e religiosa de Francisco no saudar e cantar a morte significa que já está para além da própria morte; ela, digna hóspede não lhe é problema; ao contrário, ela é a condição de viver eternamente, de triunfar de modo absoluto, de vencer todo embotamento do pecado que a transforma em tragédia. Francisco soube mergulhar na fonte de toda a vida. “Enquanto Deus é Deus, enquanto Ele é o vivente e a Fonte de toda a vida, eu não morrerei, ainda que corporalmente morra!” (L. Boff).

Morte, drama sagrado,
não uma tragédia.
Morte, bem-vinda,
não uma inimiga.
Morte, uma irmã,
não uma ladra.
Morte, abertura para a plena liberdade,
presença do Reino de Deus, utopia do justos.
“Deus enxugará as lágrimas dos seus olhos, e a morte não existirá mais,
nem haverá mais luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou” (Ap 21,4).

“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal, da qual nenhum vivente pode escapar” (São Francisco, Cântico do Irmão Sol).   
   
Sermão proferido por Frei Nilo Agostini, na Festa de São Francisco de Assis, 04/10/1991


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Livro: Francisco de Assis - Um discípulo que Provoca


Pela graça de Deus publicamos nosso primeiro livrinho sobre o carisma Franciscano.
Trata-se de três estudos.
No primeiro capítulo, utilizando as fontes biográficas do primeiro século franciscano, trabalhamos a graça salvadora em Francisco de Assis. 
No segundo capítulo fizemos uma resenha da primeira biografia de Francisco produzida por seu discípulos Tomás de Celano.
No Terceiro capítulo apresentamos a mistagogia franciscana que é sempre atual e impactante.


Compre, leia e divulgue este livrinho que está disponível no clube dos autores: 

https://www.clubedeautores.com.br/book/240108--Francisco_de_Assis#.WZ8VgEG0nIU

terça-feira, 2 de maio de 2017

Reunião da OFSE - 28 de abril de 2017

Reunião da OFSE - 28 de abril de 2017

No dia 29 de abril de 2017 a OFSE esteve reunida na Casa do Irmão Gleisto em Inhaúma, Rio de Janeiro. Foi uma reunião agradável onde estudamos o livro de Tomás de Celano sobre a vida de São Francisco de Assis. Estudamos os capítulos 20 ao 25, veja as fotos:

Joana, Gleisto, Marisa, Edson, Elonede e Edmar.
Elonede segura uma cópia da pintura de Giotto sobre o capítulo 21 de I Celano: A pregação aos Pássaros.

Pintura de Giotto (1266-1337) - A pregação aos Pássaros baseado no texto Tomás de Celano - Via I, cap 21.

CAPÍTULO 21. Pregação aos pássaros e obediência das criaturas

Enquanto, como dissemos, eram muitos os que se juntavam aos irmãos, o santo pai Francisco percorria o vale de Espoleto. Chegando perto de Bevagna, encontrou uma multidão enorme de pássaros de todas as espécies, como pombas, gralhas e outras que vulgarmente chamam de corvos. Quando os viu, o servo de Deus Francisco, que era homem de grande fervor e tinha um afeto muito grande mesmo pelas criaturas inferiores e irracionais, correu alegremente para eles, deixando os companheiros no caminho. Aproximou-se e vendo que o esperavam sem medo, cumprimentou-os como era seu costume. Mas ficou muito admirado porque as aves não fugiram como fazem sempre e, cheio de alegria, pediu humildemente que ouvissem a palavra de Deus. Entre muitas outras coisas, disse-lhes o seguinte: Passarinhos, meus irmãos, vocês devem sempre louvar o seu Criador e ama-lo, porque lhes deu penas para vestir, asas para voar e tudo que vocês precisam. Deus lhes deu um bom lugar entre as suas criaturas e lhes permitiu morar na limpidez do ar, pois embora vocês não semeiem nem colham, não precisam se preocupar porque Ele protege e guarda vocês". Quando os passarinhos ouviram isso, conforme ele mesmo e seus companheiros contaram depois, fizeram uma festa à sua maneira, começando a espichar o pescoço, a abrir as asas e a olhar para ele. Ele ia e voltava pelo meio deles roçando a túnica por suas cabeças e corpos. Depois abençoou-os e, fazendo o sinal da cruz, deu-lhes licença para voar. Com os companheiros, o bem-aventurado pai continuou alegre pelo seu caminho, dando graças a Deus, a quem todas as criaturas louvam com humilde reconhecimento.



Pastor Edmar ministrando a Eucaristia e a oração das Vésperas

Logo após a confraternização com uma deliciosa refeição

Edson, Gleisto e Edmar.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Presépio de Francisco de Assis


O presépio é talvez a mais antiga forma de caracterização do Natal. 
Sabe-se que foi Francisco de Assis, na cidade italiana de Greccio, em 1223, o primeiro a usar a manjedoura com figuras humanas e com animais de verdade formando um presépio.
A ideia surgiu enquanto o Francisco lia, numa de suas longas noites dedicadas à oração, um trecho de São Lucas que lembrava o nascimento de Cristo. Resolveu então montá-lo em tamanho natural, em uma gruta da cidade. O que restou desse presépio encontra-se atualmente na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma.
Foi uma novidade.
Francisco trouxe o mistério do Natal para os olhos humanos. Entrou no mistério litúrgico e transformou a festa do Natal.
Hoje minha casa é cheia de presépios. Eu pessoalmente os coleciono.
Mas gosto de refletir, assim como Francisco, no Mistério do Natal a partir do presépio. Ele auxilia minha espiritualidade e minha contemplação.
O Natal deveria ser a maior festa judaica, uma vez que é o nascimento do Messias tão esperado e amado pelos judeus. 
Celebramos a chegada do Natal com Festa e alegria. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A Espiritualidade da Franciscana Isabel da Hungria

A Espiritualidade da Franciscana Isabel da Hungria
falecida em 17 de novembro de 1231
Jovem viúva de 20 anos, Isabel foi expulsa de seu castelo com os quatro filhos pequenos e só conseguiu alojamento num depósito, ao lado dos porcos. 
Nessa situação,  mandou cantar um Te Deum, para agradecer a 
Nosso Senhor a graça de sofrer em união com Ele.
Isabel nasceu em 1207, na Hungria. Aos 4 anos, entrava na capela do castelo, abria o grande livro dos Salmos, e ainda sem saber ler, olhava-o longamente e passava muitas horas recolhida em oração. Ao brincar com outras meninas, procurava algum jeito de encaminhá-las para a capela. Quando esta estava fechada, beijava-lhe a porta, a fechadura, as paredes, pois, dizia ela, "Deus lá dentro repousa".
Antes de completar dez anos, perdeu a mãe, a Rainha Gertrudes. Na mesma época, faleceu também seu protetor, o Duque Herman, o qual era pai de seu futuro esposo e a tratava como filha, amando-a justamente por sua piedade inocente e graciosa.
Aos 13 anos de idade, realizou-se seu casamento com o poderoso e não menos piedoso Duque Luiz da Turíngia, ao qual havia sido prometida desde tenra infância.
Isabel fazia bom uso da imensa riqueza de seu esposo, distribuindo aos pobres generosas esmolas. Isto causava profunda irritação a muitas pessoas da corte, sobretudo aos seus dois cunhados, Henrique e Conrado. Acusando-a de estar "dilapidando o patrimônio familiar", estes não perdiam oportunidade de tentar fazer-lhe mal.
E ela, por sua vez, não se contentava em simplesmente dar moedas ou alimentos. Seu amor a Deus a impelia a ações muito mais generosas.
No ano de 1226, estando seu esposo na Itália com o Imperador Frederico II, uma terrível fome assolou toda a Alemanha, sobretudo a Turíngia. Pelas matas e campos, andavam multidões de infelizes à procura de raízes e frutas para se alimentarem. Bois, cavalos e outros animais que morriam eram logo devorados pelos homens famintos. Em breve a morte começou sua ceifa. Pelos campos e estradas, amontoavam- se os cadáveres.
Nessa terrível situação, a única ocupação de Isabel, dia e noite, era socorrer os infelizes. Transformou seu castelo na "morada da caridade sem limites", como escreve um de seus biógrafos. Distribuiu aos indigentes todo o dinheiro do tesouro Ducal. Vencendo a oposição de alguns administradores egoístas, mandou abrir os celeiros do castelo, e ela mesma dirigiu a distribuição de tudo, sem nada reservar para seus próprios familiares. Com equilíbrio e bom senso, fazia dar a cada necessitado uma ração diária. Aqueles que, por fraqueza ou doença, não conseguiam subir até o castelo, eram objeto de uma solicitude especial de parte da Santa: ela descia para ir pessoalmente socorrê-los no sopé da montanha.
Fundou três hospitais para auxiliar os doentes: um para mulheres pobres, outro só para crianças, e um terceiro para todos em geral.
Onde havia um agonizante, lá estava ela, a fim de ajudá-lo a morrer bem.
Passado esse terrível período de desolação, ela reuniu os homens e mulheres em condições de trabalhar, providenciou sapatos, roupas e ferramentas para os que não tinham, e ordenou que fossem para o campo cultivar. Em breve voltaram os bons tempos de fartura e ela pôde ver com alegria o trigo encher os celeiros e o sorriso voltar aos lábios de toda aquela gente.
Em Santa Isabel, reluz muito a solicitude para com os necessitados. Mas ela era exímia na prática de todas as virtudes. Poucas pessoas levaram tão longe quanto ela o desapego aos bens desta terra e a conformação amorosa com a vontade de Deus. Esposa exemplar, unida em matrimônio com um marido modelar, a ele dedicava todo o afeto natural e legítimo de seu nobre coração. E era retribuída na mesma proporção. Muito mais do que isso, porém, unia-os o amor a Deus, o desejo de perfeição.
Nesta perspectiva, compreende-se com facilidade a dor da separação, quando o Duque da Turíngia partiu para a Cruzada, em 1227. Sofrimento incomparavelmente maior quando, pouco tempo depois, recebeu a notícia de que ele havia falecido antes mesmo de chegar à Terra Santa.
Esse era, porém, apenas o início de uma cascata de sofrimentos. Agora ela não tinha mais a proteção de seu virtuoso esposo. Disso se aproveitaram seus dois cunhados para deixarem expandir o ódio que lhe tinham. No mesmo dia a expulsaram do castelo, sob um frio muito rigoroso, com os quatro filhos pequenos, sem lhe permitir levar qualquer dinheiro, agasalho ou alimento. E num requinte de crueldade, proibiram, sob severas penalidades, que qualquer habitante da cidade lhe desse abrigo.
Após bater sem resultado em inúmeras portas, um taberneiro - condoído, porém, temeroso de represálias - acolheu-a, mas oferecendo-lhe como albergue uma espécie de cavalariça que servia também de chiqueiro! Deste modo, a Duquesa e filha de Rei viu-se reduzida a passar a noite, com os filhos, na companhia dos porcos, agasalhando- se nos utensílios de montaria para não morrer de frio.
No dia seguinte, pessoas caridosas e de caráter levaram-lhe alimentos. Uma noite e um dia passou ela nesta "pousada dos porcos", onde foi altamente recompensada por uma aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Um velho sacerdote das redondezas ofereceu-lhe alojamento, não dispondo senão de um miserável casebre. Certo dia, a santa Duquesa visitou o convento dos Frades Menores para pedir... Auxílio? Não. Pediu-lhes para cantarem um Te Deum, na intenção de agradecer ao Senhor a graça de participar nos seus sofrimentos!
Por ordem de seus cunhados, alguns esbirros arrancaram-na daquele miserável abrigo, para mantê-la aprisionada em péssimas condições nas dependências de um velho castelo.
Após alguns meses de indescritíveis sofrimentos, sua tia Matilde, abadessa de Kitzing, tomou conhecimento desses fatos e enviou mensageiros com duas viaturas para levá-la com os filhos para o seu convento.
Passado pouco tempo, seu tio Egbert, Bispo-Príncipe de Bamberg, lhe comunicou uma proposta de casamento com o Imperador Frederico II, o mais poderoso soberano da época. Mas Isabel tinha ambições muito maiores! Seu coração estava todo voltado para o Infinito, nada nesta terra podia satisfazê-lo.
Passados poucos dias, regressaram à Turíngia os cavaleiros que tinham acompanhado o Duque Luiz à Cruzada. Apresentando-se a Conrado e Henrique, censuraram-lhes corajosamente a dureza e crueldade com que haviam tratado a viúva e os filhos de seu próprio irmão. Os dois culpados não resistiram à franqueza altiva dos seus vassalos. E, chorando, pediram perdão a Isabel, restituindo-lhe todos os bens de que a haviam despojado.
Isabel mandou construir ao lado do convento dos Frades Menores uma casa modestíssima - apelidada de "palácio de abjeção" pelos parentes de seu falecido marido - na qual se instalou, com os filhos e os serviçais que lhe permaneceram fiéis.

Na Sexta-Feira Santa de 1229, fez votos na Ordem de São Francisco, e tomou o hábito das Clarissas. Tendo edificado para si apenas uma pobre morada, empregou seus recursos em construir igrejas para Deus e hospitais para os doentes pobres, dos quais ela mesma passou a cuidar dia e noite, com mais carinho e solicitude do que antes. Deus concedeu-lhe a graça de servir aos desvalidos, não somente o pão para o corpo, mas também o esplendor da sua própria luz, através dos milagres que realizava por seu intermédio.
Certo dia, encontrou um menino estropiado e disforme, estendido na soleira da porta de um hospital. Além de surdo-mudo, ele não conseguia andar senão de quatro, como um animal. A mãe deixara-o ali, na esperança de que a boa Duquesa dele se apiedasse e o acolhesse. Logo que o viu, Isabel abaixou-se para acariciar-lhe os cabelos sujos e revoltos. E perguntou-lhe:
- Onde estão teus pais? Quem te deixou aqui? Não recebendo resposta, repetiu as perguntas. Mas o pobre ente apenas a fitava com olhos arregalados. Desconfiando de alguma possessão diabólica, ela disse em alta e clara voz:
- Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu te ordeno, a ti ou a quem em ti estiver, que me respondas de onde vens!
No mesmo instante, o menino ergueu- se e - ele que não havia aprendido a falar! - explicou-lhe com desembaraço sua triste vida. Depois, caindo de joelhos, pôs-se a chorar de alegria e louvar a Deus todo-poderoso.
- Eu não conhecia Deus, nem sabia de sua existência. Todo o meu ser era morto. Não sabia nada. Bendita sejas tu, senhora, que obtiveste de Deus a graça de não morrer como até o presente vivi. A estas palavras, Isabel pôs-se também de joelhos para agradecer ao Senhor, junto com o menino, e, por fim, recomendou-lhe:
- Agora volta para teus pais e não digas nada do que te aconteceu. Diz apenas que Deus te socorreu. Guarda-te sempre do pecado para não acontecer de voltares a ser o que eras.
A notícia desse milagre correu como um rastilho de pólvora, espalhando por toda a Turíngia a fama de santidade de Isabel. Em consequência, aumentou o número dos que a ela recorriam. E Deus dignava-Se de, por sua intercessão, atender a todos.
No dia 16 de novembro de 1231, Isabel adoeceu. Após receber a unção dos enfermos e o viático, Nosso Senhor lhe apareceu e revelou-lhe que dentro de três dias viria levá-la para o Céu. Depois desta visão, seu rosto ficou tão resplandecente que era quase impossível fixar-lhe os olhos.
Ao primeiro canto do galo do dia 19, ela disse: "Eis a hora em que Jesus nasceu de Maria Virgem. Que galo imponente e lindo seria aquele, o primeiro a cantar naquela noite maravilhosa! Ó Jesus, que resgatastes o mundo, que resgatastes a mim!"
Em seguida, disse baixinho: "Silêncio... Silêncio!..." E deixou pender a cabeça, como se dormisse. Sua alma acabava de entrar na glória celeste.


Texto baseado em: QUEIROZ, Antonio. Revista Arautos do Evangelho, Nov/2004, n. 35, p. 22 à 25)


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Francisco: O homem morto.

Francisco: O homem morto.
Dia de memória da morte de Francisco de Assis –  04 de outubro


Todo debilitado, com voz fraca, sumida, entoa Francisco o Salmo 142: “Com minha voz clamei ao Senhor…”. O Salmo vai sendo entoado pouco a pouco, e ao chegar ao versículo “Arranca do cárcere minha alma, pra que vá cantar teu nome, pois me esperam os justos e tu me darás o galardão”. Faz-se grande e profundo silêncio. Acabara de morrer, cantando, Francisco de Assis. Quem é este que transfigura o trauma da morte em expressão de liberdade tão suprema? Desaparece o sinistro da morte. E Francisco vai ao seu encontro como quem vai abraçar e saudar uma irmã muito querida (Sermão proferido por Frei Nilo Agostini, na Festa de São Francisco de Assis, 04/10/1991).
No dia 03 de outubro de 1226 faleceu Francisco de Assis. A igreja comemora o dia 04 de outubro. A morte vem para todos. Romanos 6.23 - Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Francisco já havia morrido. Morreu para o mundo quando aceitou Jesus como Senhor e Salvador e colocou o Evangelho como regra de sua vida. Descobriu um caminho velho e novo: caminhou pela ladeira do arrependimento.  Já era um homem morto. Totalmente morto.
Com isso, vivia crucificado com Cristo. Tinha a mente de Cristo. Podia dizer como Paulo: não mais vivo eu, mas este viver que agora tenho na carne vivo pela fé em Jesus Cristo que me amou e morreu por mim.
Este é o segredo de Francisco. Vivia como morto. Por isso não valorizava o dinheiro, o lucro, a ganancia, a briga, as cruzadas, os cargos eclesiásticos.
Como morto, preferia valorizar as borboletas, os pássaros, a água, o fogo, o vento, os homens, os vivos e os mortos.
Como morto fazia liturgias, orações, cânticos. Era extremamente feliz. Já havia perdido tudo. Não possuía mais nada. Andava como morto. Morreu para o mundo e estava vivo para Deus.
Talvez tenha sido o homem mais vivo que eu ouvi falar. Era vivo para as coisas de Deus. Era vivo por que já havia morrido e sua vida estava oculta com Deus em Cristo Jesus.
Sua morte corporal foi apenas uma troca de roupa. Abraçou o Pai e beijou Jesus. Sua paixão era Deus, o criador, que tanto lhe inspirou a dizer: “Louvado seja meu Senhor!”









domingo, 25 de setembro de 2016

O QUE SIGNIFICA SER UM FRANCISCANO EVANGÉLICO

13445663_529780280556666_5970598303304328380_nMinha caminhada com Francisco de Assis começou há alguns anos atrás. Fui apresentado ao místico pobrezinho de Assis por um pastor amigo meu. No começo, confesso que a vida deste santo homem de Deus não me surpreendia muito. Admito que, como a maioria das pessoas, para mim Francisco era aquela figura relacionada com a ecologia, que vestia uma roupa engraçada e sempre estava rodeado de bichinhos. Hoje, louvo a Deus por não ter sucumbido à minha primeira impressão imbuída da mais pura ignorância: comecei a ler sobre a vida e obra do chamado Santo de Assis. E o que se descortinou perante mim foi um modelo de vida e espiritualidade cristã que há seis anos têm impactado e transformado profundamente a minha vida.
Francisco nunca quis criar algo como uma “espiritualidade franciscana”. Ele apenas experimentou Deus numa dimensão de grande profundidade mediante uma amizade íntima com o Senhor Jesus Cristo. Ele também não objetava a criação de uma nova ordem na igreja católica romana. No entanto, sua vida, propósitos e paixão eram tão ardentes que começaram a contagiar outras pessoas que o conheciam, tanto homens e mulheres, o que tornou inevitável a fundação não apenas de uma, mas, três ordens chamadas franciscanas: a 1ª Ordem, a Ordem dos Frades Menores (OFM), a 2ª Ordem, a Ordem de Santa Clara (Clarissas) e a 3ª Ordem formada por não religiosos, a Ordem Franciscana Secular (OFS). Cada uma com seu carisma distinto, mas, unidas num objetivo em comum: Seguir o Cristo dos Evangelhos à moda de Francisco, tendo-o como seu fundador, pai espiritual e modelo de inspiração.
Talvez uma das coisas mais intrigantes que envolvem Francisco e seu movimento de renovação espiritual é que mesmo após ter passado oito séculos desde sua morte, sua vida, exemplo e espiritualidade continuam a arrastar multidões atrás de si. E engana-se quem pensa que apenas pessoas das fileiras católicas romanas. Francisco é mais do que um Santo católico da idade média. Ele é um patrimônio da humanidade. Sua vida toca e desafia pessoas tanto do ramo secular quanto religioso (cristão e não cristão). E no ramo religioso cristão, sem sombra de dúvidas, Francisco é o personagem da tradição católica mais amado, reverenciado e respeitado pelo ramo evangélico/protestantes. Já foram muitos os acadêmicos protestantes a escreverem livros e artigos sobre a relevância de sua vida e obra para o aprofundamento de uma autentica espiritualidade centrada no Evangelho de Jesus.
No entanto, talvez o aspecto mais impressionante da importância do pobrezinho de Assis entre os protestante seja a fundação de comunidades franciscanas de confissão protestante no século XIX. Logo após a Revolução Industrial comunidades anglicanas e luteranas que seguiam a orientação franciscana formaram-se próximas aos rincões de pobreza e miséria de suas cidades, tanto na Inglaterra quanto na Alemanha. Algumas delas se extinguiram, outras, no entanto, permanecem até os dias de hoje.
Pensar em comunidades e ordens franciscanas de confissão não católica romana soa um pouco estranho aos ouvidos de cristãos latinos, sobretudo brasileiros como nós. Contudo, sua presença na América do Norte, principalmente nos EUA, é de expressão considerável.
Depois que tive contato com a vida de Francisco, o carisma de renovação e a espiritualidade que surgiram em torno dele, brotou dentro de mim o desejo de fazer parte de uma ordem franciscana formada por cristãos de minha confissão, ou seja, evangélicos/protestantes. Principalmente depois de descobrir, como foi dito acima, que existem ordens desse tipo espalhadas pelo mundo. Foi aí que Deus colocou no meu caminho a OESI (Ordem Evangélica dos Servos Intercessores) que é um grupo interdenominacional de cristãos evangélicos que estudam juntos a espiritualidade clássica e os pais da igreja. Fazemos parte do movimento mundial chamado de Novo Monasticismo. Reunimo-nos todos os sábados num grupo de sete pessoas, e juntos estudamos a história, a espiritualidade cristãs e intercedemos por vários motivos.
Neste ano de 2016 fundamos um braço da OESI, uma outra ordem ligada a ela: a OFSE (Ordem Franciscana Secular Evangélica) que se reúne todo o último sábado de cada mês para o estudo das fontes franciscanas originais.
Sendo assim, nos consideramos cristãos evangélicos/protestantes e também franciscanos porquanto temos descoberto um tesouro espiritual de inestimável beleza e profundidade oculto na vida e obra desse homem de Deus que viveu na idade média, Francisco de Assis. Somos Franciscanos Seculares porque estudamos a espiritualidade franciscana e não fizemos votos religiosos; e evangélicos porque fazemos uma releitura do carisma franciscano adaptando-o para o contexto de cristianismo protestante.
Se eu pudesse resumir para mim o que significa ser um Franciscano Evangélico, eu destacaria os seguintes pontos:
Para mim um franciscano secular evangélico significa…
  • Ser um discípulo renascido na Graça de Deus por intermédio da fé em Jesus Cristo.
  • Ser um discípulo que passou pela experiência do arrependimento de pecados.
  • Ser um discípulo chamado a seguir e imitar a vida do Senhor Jesus Cristo.
  • Ser um discípulo perdidamente apaixonado por Jesus, que busca a cada dia estreitar ainda mais um relacionamento de íntima amizade com Ele.
  • Ser um discípulo que ama o Evangelho e o tem como única Regra de sua vida e prática (sendo que o restante das Escrituras ou são pré-figurações ou desdobramentos do Evangelho da Graça).
  • Ser um discípulo que busca a formação espiritual através da prática das disciplinas espirituais clássicas, sobretudo da Lectio Divina.
  • Ser um discípulo que busca viver as duas dimensões da vida espiritual: ativa e contemplativa.
  • Ser um discípulo que pratica as três virtudes evangélicas: Obediência, Simplicidade (pobreza) e Castidade (fora do casamento).
  • Ser um discípulo que busca ter com a natureza (criação) um relacionamento de respeito e preservação, não de domínio, abuso e exploração da mesma.
  • Ser um discípulo que compreende que a verdadeira espiritualidade é aquela que me coloca em contato com o meu próximo para amá-lo e socorrê-lo em suas necessidades: emocionais, materiais e espirituais.
  • Ser um discípulo que não abre mão do viver inserido numa comunidade de fé com o propósito da adoração a Deus, comunhão e edificação mútua.
  • Ser um discípulo que busca testemunhar o Evangelho, primeiro com o próprio exemplo de vida e depois com palavras.
Acredito que esses pontos acima definem bem o que quero dizer com ser um franciscano secular evangélico.
Se você quiser saber mais sobre nós, convido-o (a) a visitar-nos:
Deus o(a) abençoe!
Paz e bem!
tau